Juros Flat Nos EUA e Aumento Na Percepção de Risco

Desde início deste ano estamos alertando sobre aumento na percepção de risco vindo dos países desenvolvidos, especialmente dos Estados Unidos.

Após a crise de 2008, com intuito de “salvar” a economia, o governo americano atuou ativamente na política monetária reduzindo juro e injetando quantidade significativa dinheiro no mercado.

A taxa de juro é uma das principais ferramentas que os banqueiros centrais utilizam para tentar manter a política monetária dentro dos seus planos.

Obviamente que existem outros mecanismos, mas neste texto pretendo dar foco no juro devido sua relevância nas decisões de alocação de recurso.

Como a economia americana vem crescendo consistentemente, com baixo nível de desemprego (3,70% atual) e aumento nos salários. A autoridade monetária americana (FED) achou prudente praticar política monetária contracionista para evitar possíveis efeitos inflacionários.

Veja abaixo PIB americano, atualmente 3,50%:

A seguir dados da inflação americana, última divulgação 2,50%:

Quando uma autoridade monetária decide praticar uma política contracionista ou expansionista, uma das primeiras ações é a alteração nos juros.

Na política expansionista, geralmente os banqueiros centrais diminuem a taxa básica de juro com intuito de estimular o crescimento econômico através do crédito mais barato. Além dos juros, podem ser utilizados créditos subsidiados (FCO, BNDES, Finame), estimular a alavancagem bancária com redução do depósito compulsório e taxa de redesconto, dentre outros.

Já na política contracionista, a ideia é reduzir a liquidez da economia com interesse de frear o crescimento da inflação. Para isto, geralmente aumenta-se o juro, com objetivo de desestimular o crescimento por crédito e reduzir a base monetária. Pode ser usada outras ferramentas, como corte gastos público, reduzir crédito subsidiado, reduzir programas sociais, etc.

O que explica a prática das alterações no juro para condução da política monetária é que ela serve como referência para as demais taxas de mercado. Seja para tomador, quanto para o recebedor de juros.

Taxa de Juro Americana, 2,25% ano atual:

Perceba no gráfico acima que depois da crise de 2008, a redução do juro foi uma das ferramentas para condução da política monetária. Desde 2010, os EUA mantiveram a taxa em 0,25% ao ano e injetou grandes quantidades de recursos na economia (quantitative easing QE) com objetivo de incentivar o crescimento econômico.

Para entender mais sobre o quantitative easing recomendo a leitura do texto:

O que é e quais efeitos tem um programa de “afrouxamento quantitativo”

A próxima reunião do FED será no dia 19/12/2018 (próxima semana), o consenso até novembro era aumento de 0,25% fechando ano em 2,50%.

No entanto, já há divergências entre os participantes do comitê, acredito que influenciados pelas últimas declarações de Trump quanto sua insatisfação na condução da política monetária e pelos últimos dados de inflação que vieram estáveis.

No quadro abaixo, estão os bonds dos EUA negociados no mercado, iniciando com vencimento mais curto para o mais longo:

Fonte: Tranding

As taxas de juros de curto prazo em comparação com as de longo prazo US10Y estão flat, ou seja, a percepção de risco de curto prazo é maior em comparação aos vencimentos mais longo.

Perceba no gráfico abaixo, que em 2018 os juros de curto prazo subiram mais do que os de longo:

E por que entender de juros???

Numa economia que tem crescimento estimulado por crédito, os aumentos de juro fazem com que as taxas de mercado também subam tornando-se mais caro pegar um empréstimo.

Então, aquela pessoa que está pensando em comprar sua casa e se depara com juro mais alto, vai adiar sua aquisição por algum tempo. Bom exemplo disto é a taxa de juro do setor imobiliário americano (hipoteca).

Veja agora gráfico abaixo a evolução de pedidos de novas construções:

Perceba que houve uma redução nos pedidos de casas novas ao passo que o juro imobiliário começou a subir.

Em 2008, jogaram a culpa da crise no setor imobiliário, mas a origem real não foi tratada, que é a manipulação monetária.

E o juro é um pilar importante para observarmos, já que é uma das ferramentas utilizadas pelos banqueiros centrais na condução da política monetária.

A sua análise é de grande relevância, pois o juro é o preço do dinheiro e também uma das melhores maneiras de transmissão de informação para mercado.

Teoricamente quando há muito dinheiro disponível e baixa percepção de risco, a tendência é que taxa de juro seja mais baixa. Em contrapartida, seja há pouco dinheiro disponível e percepção de risco é maior, o juro se torna mais caro.

Desta forma, aqueles que precisam captar recursos para manter suas atividades, são concorrentes no mercado. E quando há escassez de recursos e percepção de risco mais elevado, é natural que bancos/investidores sejam mais seletivos na alocação dos recursos.

Na fase de redução de liquidez, a busca de crédito é como um cabo de guerra, os tomadores de crédito concorrem entre si e aqueles que tiverem melhor classificação de risco fica com a grana.

Como aconteceu recentemente no Brasil, no qual muitos daqueles que operaram com crédito subsidiado (BNDES, FINAME, FCO) não conseguiram se refinanciar e tiveram que ir no mercado privado. No entanto, quando foram para mercado, perceberam que bancos e os investidores estavam avessos e muito seletivos. Resumo da opera, várias recuperações judiciais e falências.

Como Warren Buffet já dizia:

“Você só descobre quem está nadando pelado quando a maré é baixa”

Outro aspecto importante, é que os juros entre países também são concorrentes, caso Fed continue aumentando em 2019, os demais países tenderão aumentar, se não terão dificuldades para rolar suas dívidas.

Como falei, o juro de mercado é uma das melhores maneiras de transmissão de informações. Talvez os aumentos já realizados vão além do receio com a inflação, podendo demonstrar a necessidade do FED em rolar suas dívidas em 2019, na escassez ou seletividade de crédito no segmento privado, aversão ao risco do investidor, dentre outros.

Você pode acompanhar os títulos americanos negociados no mercado através deste site. Recomendo também que acompanhe o TED Spread que representa juros bancário de curto prazo no FRED de Saint Louis aqui.

Como investidores, temos que ficar atentos ao juro, pois ele afeta diretamente os retornos das diversas classes de ativos. E também nas decisões empresariais.

Neste momento, ser mais prudente me parece a melhor estratégia, aproveitar o momento para rebalancear as carteiras reduzindo posição em renda variável e aumentar renda fixa de curto prazo ou ativos não direcionais.

Caso não queira rebalancear as posições em renda variável porque acredita numa alta nos próximos anos, poderá comprar uma Put (seguro contra queda) para protege de possível queda. Assim, poderá acompanhar alta do ativo e caso ele cai o investidor protege os ganhos já obtidos.

Alocação internacional também poderá ser oportunidade, caso algum risco aconteça por lá, os ativos de renda variável podem desvalorizar e quem tiver liquidez fora do país poderá aproveitar o momento. Neste ano o MSCI Europe já acumula queda de -16,21%, MSCI Ásia -15,93% e o SP500 -1,52%.

Se observar o SP500 desde período que houve aumento de risco, ele depreciou -9,10%.

Concluindo, o juro como você pode ver, não é um simples mecanismo onde um banqueiro central apenas apertando botão pode fazer o que quiser. Tem seus efeitos, muitas vezes não percebido no curto prazo, mas no médio e longo prazo vamos colhendo os resultados (tanto positivos quanto negativo).

Devido aumento de juros, talvez podemos esperar nos próximos meses um crescimento mais lento nos EUA. Assim uma postura mais conservadora pode além de proteger o patrimônio, fornece flexibilidade para aproveitar as oportunidades.

Espero que tenha gostado, se tiver a dúvida ou deseje acrescentar mais informações deixe seu comentário abaixo.

 

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